Ensaio
O que significa design aqui
A disciplina que falta na mesa da NR-01 existe há quarenta anos. Só não foi convidada.
Toda vez que uso a palavra “design” numa conversa sobre saúde mental no trabalho, acontece a mesma coisa. A pessoa do outro lado da mesa faz um microajuste facial (algo entre curiosidade e desconfiança) e pergunta, com toda a educação: “Tipo… design gráfico?”
Não. Não tipo design gráfico.
Mas a confusão é compreensível. Em português, “design” ficou colado em superfícies: a cor do logo, o layout do app, a fonte do slide. O que se perdeu na tradução é que design, na origem, não tem nada a ver com aparência. Tem a ver com intencionalidade.
Herbert Simon, em 1969, escreveu a definição mais limpa que conheço: faz design quem concebe cursos de ação para transformar situações existentes em situações preferíveis. Simon era economista, cientista político, psicólogo cognitivo e Nobel. Um sujeito que sabia o que era um sistema complexo. Na definição dele, o engenheiro que projeta uma ponte faz design. O urbanista que projeta um cruzamento faz design. O arquiteto de software que projeta um sistema de informação faz design. E quem projeta a organização do trabalho para que ela não adoeça as pessoas? Também faz design. Ou deveria fazer.
O campo que existe e ninguém aplica aqui
Existe uma disciplina chamada ergonomia cognitiva. Não inventei o nome. Confesso que cheguei a pensar que tinha inventado, até pesquisar e descobrir que a International Ergonomics Association define o termo desde os anos 80. A IEA descreve assim: o domínio da ergonomia que lida com processos mentais (percepção, memória, raciocínio, resposta motora) e como eles afetam a interação entre humanos e outros elementos de um sistema.
Erik Hollnagel, um dos nomes centrais do campo, resumiu em 1997 com uma frase que deveria estar pendurada na parede de todo departamento de RH: ergonomia cognitiva estuda como o trabalho afeta a mente e como a mente afeta o trabalho.
Os temas do campo são carga mental de trabalho, tomada de decisão sob pressão, estresse ocupacional, confiabilidade humana, interação com sistemas. Se você trocar “sistemas” por “organização do trabalho,” está olhando exatamente para os fatores de risco psicossocial que a NR-01 agora obriga toda empresa brasileira a mapear.
Mas a ergonomia cognitiva nasceu na aviação, na medicina, na engenharia nuclear. Contextos onde erro humano mata. O campo evoluiu olhando para cockpits, salas de controle, centros cirúrgicos. Ambientes de alta complexidade onde projetar a interface entre mente e sistema é questão de vida ou morte.
Sabe onde ele não entrou? No escritório. Na fábrica de metas. No call center. No open office onde 340 pessoas tentam se concentrar enquanto o Slack pisca a cada 47 segundos.
A diferença que importa
Preciso ser honesto sobre uma distinção que a maioria dos textos sobre o tema ignora.
Ergonomia cognitiva e fatores psicossociais não são a mesma coisa. Estão relacionados, se sobrepõem frequentemente, mas operam em registros diferentes. O cognitivo é a relação do trabalhador com os inputs que recebe: volume de informação, demanda temporal, necessidade de manter coisas na memória de curto prazo, alternância entre tarefas. O psicossocial é a relação do trabalhador com o contexto em que opera: hierarquia, autonomia, reconhecimento, qualidade das relações interpessoais, sentido do trabalho.
Na prática, os dois se entrelaçam. Uma meta impossível é fator psicossocial (pressão organizacional) e cognitivo ao mesmo tempo (sobrecarga de processamento). Um sistema de TI mal projetado que obriga o operador a memorizar 14 códigos é cognitivo puro. Um gestor que humilha em público é psicossocial puro. Mas a maioria das situações reais vive na interseção.
O que me interessa (e o que proponho neste site) não é fundir os dois conceitos. É trazer o ferramental da ergonomia cognitiva (análise de carga, design de fluxos de informação, construção de feedback loops, teste de usabilidade organizacional) para um campo onde ele faz falta: a gestão de risco psicossocial. O diagnóstico já existe; as consultorias de SST fazem isso com competência. O que não existe é a etapa seguinte: projetar a intervenção com o mesmo rigor com que se projeta qualquer outro sistema complexo feito para seres humanos.
Por que essa cadeira está vazia
A ABERGO publicou em 2022, na Revista Ação Ergonômica, um paper com título eloquente: “A importância dos aspectos psicossociais e da urgente implementação da ergonomia cognitiva na prevenção de doenças ocupacionais.” A conclusão dos autores é que os estudos acadêmicos sobre o tema são escassos. Escassos. Em 2022. Dois anos antes da NR-01 exigir formalmente o mapeamento de risco psicossocial.
Não falta conceito. Falta gente sentada na cadeira.
Parte da explicação é histórica. No Brasil, ergonomia ficou associada quase exclusivamente à NR-17 e aos seus domínios clássicos: postura, mobiliário, levantamento de peso. Ergonomia física. A ergonomia cognitiva existe como domínio reconhecido pela ABERGO desde 2000, mas na prática permaneceu confinada a nichos (aviação, saúde, interfaces digitais). Não migrou para a organização do trabalho como um todo.
Outra parte é disciplinar. Quem pesquisa saúde mental no trabalho no Brasil vem da psicodinâmica do trabalho (Dejours), da ergologia (Schwartz), da clínica da atividade (Clot). Tradições densas, sérias, com décadas de produção. Mas tradições que operam na lógica da compreensão do trabalho, não do redesenho. Entendem o sofrimento. Não projetam a alternativa. E, convenhamos: projetar alternativa sem compreender o sofrimento é charlatanismo. As duas coisas precisam andar juntas.
Tem um terceiro fator, mais mundano: quem projeta sistemas (designers de produto, de informação, engenheiros de UX) trabalha em tech. Não em SST. Não em RH. Não em gestão de risco ocupacional. O mercado que paga melhor capturou a competência. O campo que mais precisa dela não sabe que ela existe.
O que estou fazendo aqui (e o que não estou)
Não estou inventando uma disciplina. Ergonomia cognitiva existe há mais de quarenta anos. Tem literatura, metodologia, casos aplicados em aviação, medicina e indústria de alto risco. O que estou fazendo é mais modesto e, espero, mais útil: apontar essa disciplina para um campo onde ela ainda não entrou.
Quando digo que saúde mental no trabalho é também um problema de design, o “também” carrega todo o peso da frase. Médicos diagnosticam. Psicólogos tratam. Advogados mapeiam risco. Sindicatos defendem direitos. Tudo isso é necessário. Nada disso é suficiente se ninguém projeta a mudança nas condições que geram o dano.
Projetar, aqui, não é fazer wireframe. É olhar para a organização do trabalho com a mesma disciplina com que se projeta um cockpit, uma sala de controle, ou (para ser menos dramático) um aplicativo que funciona para quem o usa. Significa perguntar: qual é a carga cognitiva real desse posto de trabalho? O feedback sobre sofrimento chega a quem pode mudar alguma coisa? Os indicadores medem resultado ou medem adesão? O sistema aprende ou repete?
O nome técnico é ergonomia cognitiva. O efeito prático é intencionalidade: em vez de reagir ao dano depois que ele aparece no ambulatório, no FAP ou no processo trabalhista, projetar o sistema de trabalho para que o dano não seja o resultado mais provável.
Herbert Simon chamaria isso de transformar uma situação existente numa situação preferível. Eu chamo de ocupar a cadeira que está vazia.